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Um breve excerto sobre a inveja.

             Segundo o dito popular, o exilado pecado da inveja mata. Eu até diria que é verdade, se considerasse que tanto o invejoso quanto o invejado morrem, mais cedo ou mais tarde. Eu – o invejoso e o invejado, conforme as taxações – confesso que vou morrer, sim. Assim como você, meu leitor, sua mamãe, seu papai, seu amiguinho e todos os patinhos.
             No entanto, uma das coisas que mais me irrita é o uso inadequado de palavras das quais não se tem ciência do significado. Ou seja, antes de falar qualquer merda, é sempre bom saber o que a merda significa. É como na aula de semiótica: se não houver prévio conhecimento do signo, o significante e o significado serão distorcidos ou não reconhecidos.
             Para esclarecer: o pai dos menos inteligentes que nós apregoa que a inveja ramifica-se em várias situações, que variam desde o sentimento de despeito, passando pelos ciúmes, a cobiça e, claro, a que eu mais gosto: “misto de pena e de raiva”.Depois desta última, considero-me, realmente, invejoso.
             Ô dó!

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“Não prometa o que o seu know-how não know how fazer.” Adoro!
O quanto puder, claro, se puder.

As cores das coisas comuns

             Eu nunca perdi minha capacidade de me admirar com o mundo, nem quero perder. Me divirto nos detalhes quase imperceptíveis das coisas banais. Penso que a trivialidade está carregada de surpresas sutis, ora boas, ora ruins, mas sempre com uma energia latente, com potencial para te deixar feliz, perplexo, triste e tantos outros sentimentos sobre os quais não temos a menor autonomia.

             Para mim, essa observação é ainda mais válida. Sei que existem pessoas que não têm sentimento, ou no mínimo não demonstram; há aquelas que sentem demais e aquelas que preferem não sentir. Eu sou a prova viva das três situações, como num espectro de cores, onde cada um dos valores inseridos pode determinar milhões de cores diferentes. Eu sou um espectro de sentimentos. A admiração mais uma pitada de perplexidade forma um terceiro sentimento, a dubiedade. O amor decrescido de dez por cento de cumplicidade não é mais amor. A antiga amizade combinada com gradações de divergências dá formas à antipatia.

             Nesses últimos dias, tenho andado com minha “paleta” a tiracolo. Digo mais uma vez que não canso de me admirar com o mundo e suas banalidades, e que faço questão de reparar e contestar aquilo que me chama a atenção.

             Hoje mesmo, eu acabara de chegar nas dependências da empresa onde trabalho e resolvi dar o meu tradicional “bom dia” para um funcionário. Percebi que o “bom dia” foi recíproco, mas o “tudo bem?” não obteve nenhum tipo de resposta. É assim todos os dias. Sempre vejo que as pessoas não respondem aos cumprimentos de ninguém. Pensei um pouco a respeito e até tirei algumas conclusões, mas fiquei intrigado na razão de as pessoas serem assim. No motivo pelo qual elas respondem obrigatoriamente ao “bom dia” e não aos cumprimentos. Será que o coleguismo dentro de uma empresa é sintetizado numa expressão pronta, que se exprime automaticamente às oito da manhã? Ou será que eu sou sociável demais?

             Independentemente da resposta, gostei da observação.

             Uma outra situação interessante é quando vejo o caminho para o qual as pessoas estão levando o amor. Provavelmente, dentro de alguns dias, começarei a dizer “eu te amo” com a mesma freqüência que digo os “bom dia” citados acima. Eu sei que é nobre a faculdade de amar, mas atualmente temos dois grandes problemas com o tal sentimento: a intensa vulgarização das pseudo-sensações e a confusão causada por elas. Ora, por favor: paixão é uma coisa, carinho é outra e, o amor é algo completamente diferente, uma reviravolta. Amor não aparece em um mês ou dois. Amor não aparece em seis meses. Amor não nasce do dia para a noite. É único, especial e dispendioso. Leva tempo até que o carinho e o afeto comecem a tomar formas mais fixas, menos volúveis. Por ignorância de uns, ignorantismo de outros, temos hoje um altíssimo índice do que chamo de turnover do coração, ou seja, uma imensa rotatividade de amores que entram e saem, assim, do nada. Hoje ama-se a torto e a direito e fica todo mundo feliz, até o momento carinhosamente apelidado de “a hora de quebrar a cara.” Uma nesga de fogo-de-palha em tons de laranja com quinze por cento de burrice acinzentada. A paixão-marrom-efêmero.

             Quer saber? Apesar do meu olhar crítico sobre os fatos, sobre as pessoas e os mais bizarros modos de expressão que elas apresentam, eu não quero ser um psicólogo. Não quero saber o que você tem, não quero te curar, não quero que você deixe de ser o que é porque eu lhe disse ou deixei de lhe dizer algo. O que eu quero é ver os seus erros em essência, as entranhas das suas falhas e, claro, o escopo das suas boas atitudes, dos seus acertos e sucessos. Todos deveriam ser assim. É um constante processo de aprendizado, de autolapidação, egocêntrico, às vezes, mas que sempre lhe ajuda a tomar decisões corretas, a endireitar o que foi feito às canhas. Um processo de mistura das cores da paleta-luz, até na chegar no branco-perfeição.

             Sei que a cegueira causada pelo pseudo-amor alheio aguça minha visão. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Sei que falta de educação alheia me ensina a ser cada vez mais cordial, respeitoso e respeitável. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Sei que a petulância alheia me diz que tipo de pessoa me circunda. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Acredito ter-me feito entender como um bom crítico, um bom observador, embora não deixe transparecer no meu dia-a-dia. O homem é um ser sutil e eu não fugi à regra. Apenas aproveitei dessa sutileza para me aprimorar e tentar fazer o mesmo com aqueles pelos quais mantenho minha estima. Se puder despertar nelas o maravilhoso senso de analisar, creio que compartilharão da minha opinião. Quero suscitar nelas, a aptidão de sempre se surpreender, mesmo com as coisas mais tolas. Quero que elas aprendam a ver como eu vejo, que elas descubram que o homem-comum é a melhor surpresa. Quero que percebam que as grandes lições estão em Nietzsche, Montaigne ou Agostinho, mas que as melhores e mais concretas, nunca abandonaram o seio da trivialidade do homem contemporâneo.

Pequena grande distração.

             No horário de verão o sol se põe mais tarde, pelo menos no nosso tempo. Já era pouco mais de seis e meia, dentro do último ônibus que chegava na faculdade antes das sete. Do lado de fora, o mormaço insuportável de um dia quente, enquanto o sol arriscava os primeiros passos para “pular no poço”, como dizia vovô. Do lado de dentro, o mesmo mormaço de quem trabalhou no dia quente, gente amarfanhada por todos os lados e, claro, ela. Loira, olhos azuis, aparelho nos dentes e dona dos maiores peitos que já vi.
             Eu não queria, não podia olhar. Não é do meu feitio olhar para partes “protuberantes” que não me interessam e aquelas, definitivamente não me interessavam. Mas foi inevitável. Dizem que quem não quer ver estrelas, não olha para o céu, mas não dizem que a gente vê os reflexos do sol por toda a parte, mesmo sem olhar pro céu. Da mesma forma, é impossível não perceber as “protuberâncias protuberantes demais”. Os peitos viraram ímãs. Os olhos, dois pregos. Enferrujados.

UM BREVE RETRATO DA MULHER
Magra, de cabelos loiro-acastanhados e olhos azul-crepúsculo*
Pele cor-de-caixa-de-papelão, dentes impecavelmente brancos, cravejados de metal.
E claro, com duas cabeças presas no busto.

             Estávamos no mesmo ônibus, no qual não se enxergava quem estivesse a míseros dois passos de distância. Contudo, minha visão era privilegiada. Ao contrário da maioria dos trogloditas da viagem, eu não via a coisa superficialmente, mas por baixo. E tenho certeza que qualquer um adoraria se sentar no meu lugar. Qualquer um, menos eu. Aquilo já estava por me nausear. Qualquer coisa que fosse feita ali, entre tanta abundância, se perderia. Inclusive eu.
             Como disse, era impossível não olhar. Meu livro já não sabia o que era atenção há um bom tempo. Os brutamontes já não sabiam (e nem queriam saber) de outra coisa que não apresentasse formas esféricas e fossem apalpáveis. E eu só queria sair dali, pelo menos em pensamento. Comecei a reparar em outras coisas, outras pessoas, outros peitos, por distração. Vi que a maioria das pessoas carregavam sacolinhas do supermercado para o qual trabalho. Achei interessante o fato de que todas as que carregavam sacolas tinham comprado um mesmo produto, que estava em promoção. Oras! Sou responsável pela promoção e vi que se todas elas compraram um produto que divulguei, é porque estou trabalhando bem. É porque o meu P26 do Predictive Index não existe à toa. P26 é um perfil autoritário, executivo e exigente. Gosto das coisas bem feitas, até na hora de embalar as compras.
             Sendo assim, nada de Codil e Baygon na mesma sacola. Nada de uvas ou morangos amassados por batatas.
             Nada de Carefree ou Atroveran mal colocados na sacola da peituda.


d-,-b > Portishead – Machine Gun (CD novo!)

*meu crepúsculo é azul, e daí?

O Café Neo-Nacionalista

Quero te confessar uma coisa, mas tenho medo de como será a sua reação, meu caro. Eu acabei de cometer um crime. Roubei uma rosquinha do pote de rosquinhas da diretoria. Eu também queria tomar um gole do café, só pra ver se tem um gostinho diferente do café da plebe, mas não pude. Aliás, não quis. Não quis porque detesto café, tem um gosto horrível e me dá uma puta crise de enxaqueca.
            De um lado, o pote cintilante de rosquinhas, apelando por uma violação da tampa. Do outro, a vasilha opaca, destampada e com alguns tímidos pãezinhos. A metáfora perfeita para um texto qualquer, como este.
Para falar a verdade, entre a rosquinha-de-ouro-lácteo e o pão-francês-da-plebe-nacional, há uma boa briga. O completo desequilíbrio entre a ambição do típico brasileiro – audacioso e sagaz – e o conformismo insuportável do brasileiro ainda mais típico – folgado e desmotivado.
            Desde pequenos somos habituados à mania execrável de dar sempre um “jeitinho” pra tudo, a aceitar tudo o que nos é imposto com uma facilidade incrível e ainda dizer que está tudo bem, que está tudo ótimo. O simples fato de pensar que “fulano está pior que eu” já é o suficiente e reprime até mesmo o tal jeitinho. É o Brasil do pão-de-sal. É o Brasil do pão-com-ovo.
            Paralelamente, nossas mentes são constantemente bombardeadas com teorias e dicas sobre “como atropelar o próximo para se dar bem”. Ninguém mais lembra o que é honestidade e se perguntarmos a alguma criança o que é, na certa ela dirá que é um novo salgadinho da Elma Chips ou um novo game on-line. Este é o Brasil da rosquinha.
            Já não seria hora de começarmos a tomar um cafezinho, só pra facilitar a mastigação? Só pra deixar tudo com um gostinho diferente ou aliviar a digestão, mesmo que tenhamos que agüentar a enxaqueca depois.
            Quero cometer outro crime. Mas a garrafa está vazia.

Réplica

             Analfabetismo: s. m., falta absoluta de instrução;
            Num rápido parágrafo apenas para descontração, creio que apenas esta definição de analfabetismo seja o suficiente para dizer que o nosso querido Mr. President realmente não é analfabeto. Peço perdão aos esquerdistas aos quais ofendi e aproveito a deixa, para dizer que apesar de pouco estudo, o honey barbudinho do dedo a menos tem alguma instrução. Não se sabe ao certo do quê, mas é fato irrefutável e horrivelmente admissível que o Richard Gere Mal Acabado do Planalto tem alguma instrução. Na verdade, eu não gostaria de escrever isso tudo, afinal de contas, é uma realidade de oito anos que o brasileiro ainda não digeriu. Só o digo, em poucas e breves palavras por resgate ao meu direito subjetivo de resposta a alguém que não conheço.
             Procure-me quando fugirmos das bananas.