Publicidade, sangue e um potinho de cocô
Quarta-feira, 7:06h, senha 22 e uma bela porção de gente sentada nas cadeiras geladas do laboratório. Não sei se estou certo, mas a impressão que tive foi a de que boa parte da cidade resolveu fazer o mesmo exame que eu, no mesmo dia que eu, no mesmo horário que eu e com o mesmo médico que eu, com exceção do infeliz que esquecera o potinho branco e marrom na cadeira ao meu lado. O tom branco-translúcido do plástico e o marrom você deve saber muito bem do quê, já estavam por me centrifugar o estômago. Sorte a minha pelo pote estar lacrado. Azar o meu por ter escolhido justamente aquele lugar para sentar.
-Dezessete, guichê dois, por favor.
Do outro lado do pote, uma garota de cabelos pretos, rosto angelical e uma pinta pouco acima da boca, um tanto parecida com a cafetina do meu extinto fetiche. Digo “parecida” pelo fato de a minha cafetina não ter as unhas roídas e nem o rosto em tons de amarelo-trator. Me daria dó se eu não a tivesse visto dias antes no You Tube se esbaldando com uma garrafa de refrigerante. Acho que o amarelo era de um leve sentimento de vergonha, ou, no mínimo, o refrigerante que secou. Talvez as unhas fossem o tira-gosto.
-Dezoito, guichê quatro, por favor.
O potinho no meio, a garota de um lado e eu de outro: belo sanduíche! Uma comedora de unhas, um hipocondríaco atrasado para o trabalho e um monte de merda enlatada entre os dois. Senti falta da garçonete servindo 700ml de Gelo com Coca-Cola, como no Burger King, mas na falta, “sempre há um copinho com dois goles de Fanta depois do exame”, como dissera a enfermeira. Numa ocasião tão metafórica (irônica, até) chega a ser um pouco asqueroso pensar no que seriam os dois goles de Fanta, principalmente se for a enfermeira quem servir.
-Dezenove, guichê um, por favor. Dezenove, guichê um, por favor. Vinte, guichê um por favor.
7:34. A senha vinte era da comedora de unhas. Ela foi a primeira mordida do sanduíche. Restávamos eu, o cocô, e pouco mais de vinte minutos para chegar ao trabalho. Queria saber quem foi o maldito publicitário que fez a campanha do laboratório. Quem se sente feliz, com um sorriso prateado de uma orelha à outra e saltitando de alegria quando está prestes a ser perfurado por uma agulha? Quem se sente tranqüilo antes de fazer uma laringoscopia? Qual é a criança que não vai chorar ao ser violada por uma agulha, só porque está vendo um monte de bichinhos pintados na parede? Quem gosta de se sentar ao lado de um pote de merda? Ah, faça-me o favor. Às vezes eu me pergunto se a publicidade é ou não mentirosa. Sempre chego na conclusão de que nós não mentimos, mas “eufemizamos” as coisas que são duras demais para uma digestão saudável. Somos a água que te ajuda a engolir. Ou a Fanta.
-Vinte e um, guichê dois, por favor.
Entre a saraivada de tossidos e espirros, levanta-se um homem, triunfante e imponente, como nos filmes antigos. Faltara a ele somente o gelo seco, luzes ao fundo e músicas do Era ou Madredeus, que acredito terem tocado em seu subconsciente, num volume tão intenso, que não o deixou escutar, pela segunda vez: “Vinte e um, guichê dois, por favor”. O jeito era cutucar o homem triunfante e imponente, com a ponta dos dedos, desperta-lo. Se algo me fizesse aperta-lo com as mãos, o triunfo então seria meu.
-Vinte e dois, guichê quatro, por favor.
Ah, minha vez! 7:41h. O último ônibus passa às 7:45h. Diferentemente da Madonna, meus quatro minutos são para salvar o meu dia de trabalho e não o mundo. Time is waiting. A coletora era uma mulher “especial”: pele morena, olhos e boca impecavelmente delineados, cabelos lisos pela chapinha, dois metros de altura, um e meio de largura e três de diâmetro. Era um monstro, nada menos que isso. Quem foi o maldito publicitário que colocou enfermeiros de jaleco branco e olhos plácidos no comercial? A realidade agora era dura demais pra ser engolida, ou pior: a realidade era um buraco prestes a me engolir. Por alguns instantes me perguntei se eu deveria mesmo fazer os exames, mas não durou muito. Ela “graciosamente” colocou as mãos em meus ombros e me conduziu até à sala de coleta. Pensei estar carregando dois sacos de cimento, enquanto ela me acariciava os trapézios. Não houve um “bom dia”, um “como vai?”, ou um “oi” sequer. Tudo o que escutei foi um “bote o braço aqui” e o esticar da borracha. Aliás, aquela borracha é pior que a agulha. Somando meus medos, eu agora tinha oito exames diferentes a se fazer com a mesma amostragem de sangue, estava em uma sala pequena e fechada, com uma mulher bizarra ao meu lado, uma seringa, uma agulha e uma borracha me prendendo a circulação. Eu poderia gritar, mas quis não arriscar. Ali do lado também havia éter para me deixar inconsciente e consumar o “Boa noite Cinderela” ou extirparem meus rins e me colocarem numa banheira de gelo. Bobagem, a minha. Nesse momento, percebi que poderia respirar aliviado, pois os animaizinhos estavam pregados na parede. Uma galinha rosa, um jacaré azul, um tucano vermelho. Além de tudo, ainda fui levado para a sala infantil, sem direito a pirulito depois da agulhada. Por sorte a minha, não demorou muito. Oito tubos de ensaio cheios em menos de dois minutos. Oito quarteirões a se correr em menos de dois minutos. “– Posso correr depois da coleta, moça?”, “– Tome um café antes”.
Nada de café. Alguns passos depois da sala infanto-surrealista, de volta à recepção, uma senhora apanha o tal pote nas mãos e se senta, colocando o “Coletor Universal Farmax” no colo e encobrindo-o com as mãos, como quem tenta proteger algo valioso. Levantou-se quando ouviu alguém chamar pela “Dona Uáilde*”. Juro que na hora não ri nem sequer fiz piadinhas para mim mesmo, mas a melodia e alguns versos de “Born to be wild” dos Rolling Stones refestelaram-se na minha cabeça por um bom tempo. Depois de ouvir “cadê meu cocô, caramba?” ao derrubar o potinho, parodiei para “Born to be Uáilde”.
7:46h, sozinho, perfurado, com fome e cansado.
7:47h. Atrasadíssimo. Por sorte, o ônibus também.
*se não sei a grafia correta, o jeito é a fonética, né?

bom, ainda bem que os onibus se atrasam… mas o melhor com certeza foi o bom to be uáilde.. UHAuAHuaHuAhuA
raxei de rir aqui!!!
seus textos são otimos, jaum!
adooouro!
bjinsss