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As cores das coisas comuns

             Eu nunca perdi minha capacidade de me admirar com o mundo, nem quero perder. Me divirto nos detalhes quase imperceptíveis das coisas banais. Penso que a trivialidade está carregada de surpresas sutis, ora boas, ora ruins, mas sempre com uma energia latente, com potencial para te deixar feliz, perplexo, triste e tantos outros sentimentos sobre os quais não temos a menor autonomia.

             Para mim, essa observação é ainda mais válida. Sei que existem pessoas que não têm sentimento, ou no mínimo não demonstram; há aquelas que sentem demais e aquelas que preferem não sentir. Eu sou a prova viva das três situações, como num espectro de cores, onde cada um dos valores inseridos pode determinar milhões de cores diferentes. Eu sou um espectro de sentimentos. A admiração mais uma pitada de perplexidade forma um terceiro sentimento, a dubiedade. O amor decrescido de dez por cento de cumplicidade não é mais amor. A antiga amizade combinada com gradações de divergências dá formas à antipatia.

             Nesses últimos dias, tenho andado com minha “paleta” a tiracolo. Digo mais uma vez que não canso de me admirar com o mundo e suas banalidades, e que faço questão de reparar e contestar aquilo que me chama a atenção.

             Hoje mesmo, eu acabara de chegar nas dependências da empresa onde trabalho e resolvi dar o meu tradicional “bom dia” para um funcionário. Percebi que o “bom dia” foi recíproco, mas o “tudo bem?” não obteve nenhum tipo de resposta. É assim todos os dias. Sempre vejo que as pessoas não respondem aos cumprimentos de ninguém. Pensei um pouco a respeito e até tirei algumas conclusões, mas fiquei intrigado na razão de as pessoas serem assim. No motivo pelo qual elas respondem obrigatoriamente ao “bom dia” e não aos cumprimentos. Será que o coleguismo dentro de uma empresa é sintetizado numa expressão pronta, que se exprime automaticamente às oito da manhã? Ou será que eu sou sociável demais?

             Independentemente da resposta, gostei da observação.

             Uma outra situação interessante é quando vejo o caminho para o qual as pessoas estão levando o amor. Provavelmente, dentro de alguns dias, começarei a dizer “eu te amo” com a mesma freqüência que digo os “bom dia” citados acima. Eu sei que é nobre a faculdade de amar, mas atualmente temos dois grandes problemas com o tal sentimento: a intensa vulgarização das pseudo-sensações e a confusão causada por elas. Ora, por favor: paixão é uma coisa, carinho é outra e, o amor é algo completamente diferente, uma reviravolta. Amor não aparece em um mês ou dois. Amor não aparece em seis meses. Amor não nasce do dia para a noite. É único, especial e dispendioso. Leva tempo até que o carinho e o afeto comecem a tomar formas mais fixas, menos volúveis. Por ignorância de uns, ignorantismo de outros, temos hoje um altíssimo índice do que chamo de turnover do coração, ou seja, uma imensa rotatividade de amores que entram e saem, assim, do nada. Hoje ama-se a torto e a direito e fica todo mundo feliz, até o momento carinhosamente apelidado de “a hora de quebrar a cara.” Uma nesga de fogo-de-palha em tons de laranja com quinze por cento de burrice acinzentada. A paixão-marrom-efêmero.

             Quer saber? Apesar do meu olhar crítico sobre os fatos, sobre as pessoas e os mais bizarros modos de expressão que elas apresentam, eu não quero ser um psicólogo. Não quero saber o que você tem, não quero te curar, não quero que você deixe de ser o que é porque eu lhe disse ou deixei de lhe dizer algo. O que eu quero é ver os seus erros em essência, as entranhas das suas falhas e, claro, o escopo das suas boas atitudes, dos seus acertos e sucessos. Todos deveriam ser assim. É um constante processo de aprendizado, de autolapidação, egocêntrico, às vezes, mas que sempre lhe ajuda a tomar decisões corretas, a endireitar o que foi feito às canhas. Um processo de mistura das cores da paleta-luz, até na chegar no branco-perfeição.

             Sei que a cegueira causada pelo pseudo-amor alheio aguça minha visão. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Sei que falta de educação alheia me ensina a ser cada vez mais cordial, respeitoso e respeitável. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Sei que a petulância alheia me diz que tipo de pessoa me circunda. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Acredito ter-me feito entender como um bom crítico, um bom observador, embora não deixe transparecer no meu dia-a-dia. O homem é um ser sutil e eu não fugi à regra. Apenas aproveitei dessa sutileza para me aprimorar e tentar fazer o mesmo com aqueles pelos quais mantenho minha estima. Se puder despertar nelas o maravilhoso senso de analisar, creio que compartilharão da minha opinião. Quero suscitar nelas, a aptidão de sempre se surpreender, mesmo com as coisas mais tolas. Quero que elas aprendam a ver como eu vejo, que elas descubram que o homem-comum é a melhor surpresa. Quero que percebam que as grandes lições estão em Nietzsche, Montaigne ou Agostinho, mas que as melhores e mais concretas, nunca abandonaram o seio da trivialidade do homem contemporâneo.

~ de João em Março 12, 2008.

2 Respostas to “As cores das coisas comuns”

  1. concordo com você qndo diz que amor é coisa que necessita de tempo para “tomar forma”, mas acredito que a gnt não pode estipular um deteminado tempo para ele “acontecer” ou começar a acontecer. Você sabe definir o amor? Tipo,em palavras que irão significar exatamente o que é esse sentimento e todos os seus efeitos?! Eu não consigo, e assim como a não consigo dizer a sua definição também não consigo dizer que um indivíduo só poderar amar depois de 6 meses, ou isso ou aquilo… Sentimento é algo individual, o qual cada um sabe de seus próprios sentimentos… O que você acha pode ser ou não o que outro acha ou sente.. E essas definições dos sentimentos vão sendo construidas na percepção de cada um através de suas experiencias… por isso não podemos dizer o que outra pessoa está ou não sentindo… porque não somos ela e não vivemos as experiencias dela…
    na questão de as pessoas não responderem a cumprimentos, acho que eles são é sem educação mesmo.. rsrs.. brincadeira.. isso normalmente acontece em ambientes de trabalho.. as pessoas estão concentradas em suas coisas, em seus mundos.. e automaticamente respondem.. enfim.. cada um tem uma maneira..
    também gosto de observar as coisas cotidianas, mas nem sempre me dou ao direito de falar… mtas das vezes pensar e criticar, no bom e mal sentido, já está de bom tamanho.

    No mais, adorei o novo layout do blog, ficou mto fino.

    bjos

  2. ah, mas a cor q mais gosto é branca-paz e tenho procurado mto pela amarela-dindin, mas essa ta dificil achar o tom certo, viu!?
    AUhuAhuAhuahuAhuAhA

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