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O Bom Dia Feliz

              Normalmente as primeiras horas do dia são sempre iguais, pra todo mundo. Isso é fato, é verdade, é lamentável. Quando digo “as primeiras horas do dia” não me refiro ao sentido literal da palavra, meia-noite, uma, duas, três da manhã. Me refiro às primeiras horas do meu dia – sete, oito, nove – ou às primeiras horas do dia de minha mãe – oito, nove, dez, – ou às primeiras horas de qualquer pessoa. Ou seja, o sentido aqui proposto é dos primeiros tempos depois de acordado, o seu tempo oficialmente produtivo e útil, embora pra muita gente não tenha nada produtivo, quem dirá de útil.

              Sem mais delongas ou explicações, um acontecimento recente me fez refletir sobre aquilo que dizemos nas primeiras horas do dia: os tão afamados “bom dia”, aos quais sempre gosto de fazer referência em suas diversas formas, da sussurrada à arrastada, passando pela deprimente e, sobretudo, pela alegre.

              Gosto de ser acordado com um sorriso, com olhos radiantes, pregueados de sono e levemente delineados de remela. Cabelos desgrenhados e hálito de cabo de guarda-chuva. Gosto da naturalidade das coisas, do modo como as coisas transcorrem de fato. É assim com todo mundo, comigo, com você, com o Papa e com o Bush. Excluindo-se as atrizes da Globo, ninguém mais acorda com o cabelo penteado, olhos sedutores e boca impecavelmente torneada.

 

UM BREVE PARADOXO

Elas acordam lindas e, mesmo assim, de mau-humor.

 

              Bom, já que é mal de todo mortal acordar feio por fora, é melhor que sejamos bonitos por dentro, especialmente no momento em que nos achamos tão horrendos. E os bons leitores de “O Segredo” que me entendam, mas aqui se aplica também a Lei da Atração. Aqueles que acordam secos, ásperos e amargos darão bom dia’s secos, ásperos e amargos, que por sua vez, deixarão secos, ásperos e amargos os momentos do cumprimentado. Assim, nosso mundinho fica cinza, logo de manhã.

              E se você pensa que acordar é um momento triste, eu penso que é um dos momentos mais felizes da vida. Aliás, o que seria a vida se não acordássemos todos os dias?

              Quantas vezes lembramos de dar bom dia para a alegria após os momentos tristes?

              Quantas vezes deixamos de dar bom dia para a saúde, até o dia em que ficamos doentes?

              Quantas vezes esquecemos de dar bom dia para nós mesmos, até o dia em que alguém nos machuca?

              O Bom Dia não é ofensa, lamento, tampouco uma súplica. O Bom Dia é a mais banal expressão de como você deseja que seja o seu dia e o daqueles que lhe circundam. É o mais sincero voto de cordialidade e companheirismo tanto no trabalho, quanto na família ou escola.

              O Bom Dia que não começa bem, não termina bem, se torna hipócrita, irônico. E até o dia em que eu me acinzente num olhar ranzinza, meus “bom dia” serão felizes. Até o dia em que eu me sinta satisfeito, enquanto alegre for, não me despedirei do meu sono, mas saudarei o novo dia, o novo começo.

              Um bom dia sincero a todos.

et caetera

             Para os internautas hipocondríacos
             Quando estiver doente, ou pressupor que está doente, procure um médico, não a internet. Sites de consultórios médicos renomados, programas de tevê e fóruns em comunidades virtuais (estes principalmente) só servirão pra lhe enfiar mil bobagens na cabeça e onde mais você queira. Sem lubrificante.
             Você passará a não dormir, a não comer e, aí sim, você estará doente. Um espirro mais alto é um dos poucos resquícios do seu pulmão, deteriorado pela tuberculose. Um pum, ah, é o último suspiro do seu intestino corroído. Bem vindo à sua iCova! Se é a primeira visita, conte-me seus sintomas.

             Para os órfãos de pais vivos
             Falta de caráter é problema genético. Se o pai é um filho da puta, o filho é da putinha. Geralmente é aquela secretária gostosa que faz companhia no trabalho e liga pra ele às dez da noite. Se eu fosse um pouco mais malicioso, acreditaria que “serão extra” é uma nova marca de camisinha.
             Mas vejamos pelo lado bom das coisas: o legal de ser filho da putinha é que sua mãe não é cafetina (ainda) e você tem tudo pra ser político ou árbitro de futebol. Como opcional, você pode arrancar um dedo e virar presidente. É ifaí companhêro!

             Para os colegas do “trancidão”
             Quando precisar de um ônibus, vá de táxi, cê sabe. No táxi você não corre o risco de se sentar na cadeira dos “pêeniés” (Portadores de Necessidades Especiais) e não tem nenhuma gorda pra sentar em cima de você, a menos claro, que você se permita uma seção de lipo-flagelação. E o que é melhor: você não anda com uma centrífuga no estômago e nem é obrigado a respirar o ar pútrido de alguns sovacos acebolados. Por pouco não dão o bife também! Pelo preço do transporte, darão um quilo de muxiba pra fazer dueto.

             Para os trocadalhos do carilho
             Eu gosto de cursos e experiências para enriquecer o meu currículo, mas daí a escutar que estou buscando um bom “cu rico” é dose. Piadinha medíocre que envolve o meu cu, minha profissão, dinheiro e o cu dos outros. Provenham-me somente com a grana e vejo o que faço com os rabos depois. O resto vira piadinha “curriqueira”.

             Para todos os rugidos e canções
             A professora de semiótica disse que a estrutura linear de se expressar o pensamento é invenção do homem. Ou seja, fomos nós quem inventamos a bendita (ou maldita) forma de fazer com que a palavra B modifique A e C modificando B que, por sua vez, não existiria sem A. É certo de que a ordem dos tratores não altera o viaduto, mas a tal da estrutura linear faz-se responsável pela confusão de dormir com a Maria José e dormir com o José Maria. Se temos Teoria Matemática da Comunicação, porque não são válidas as propriedades comutativas da linguagem? Felizes são os ideogramas. E mais bonitinhos também.

             Para o final do Big Brother
             Uma vez ouvi dizer que o Big Brother é fruto da cultura mediana-inferior da sociedade. Então, assim como o bebê que chora antes de mamar é o povo que clama por algo que o agrade. Surge assim o nosso Grande Irmão, o caçulinha das casas de milhões de brasileiros, que têm aquilo pelo qual procuram: um programa fácil de ser digerido, que não exige muito de quem o assiste, dono de um imenso potencial para manipular e ser manipulado e, sobretudo, que retrata a realidade nacional nua e crua: gente rica lidando com gente pobre.
             Junte a isso o racismo televisivo (da emissora) de colocar somente um ou dois negros em cena, um homossexual enrustido que resolve sair do armário em frente às câmeras, o saradão e a safadinha e pronto! A receita para um dos maiores fenômenos de audiência dos últimos tempos.

             Para meus momentos no banheiro do escritório
             Desde pequeno sempre valorizei a minha privacidade. Há quem diga que isso é coisa de boiola. Há quem diga que é normal. Só não gosto quando a falta de privacidade se transforma em exibicionismo barato ou em um prato de entrada para a falta de educação. “Vai, João! Mije de pernas e portas abertas e segure com as duas mãos!”, penso. Nunca! Prefiro a cabine com portas trancadas. Privacidade pode ser frescura, mas o mictório não reúne as visões que me agradam. Que bom que todos lavam as mãos de braguilhas fechadas.

             Para a hipocrisia da TV Globo
             A nossa amiguinha plim-plim é uma das maiores aliadas do Copyright e posiciona-se absolutamente contra a pirataria, e claro, está certíssima. Segundo o G1, site de notícias da Rede Globo, o novo álbum do grupo de trip-hop Portishead, que só seria lançado em meados de abril, já vazara na internet e estaria disponível para os usuários que quisessem baixar. Porém, na última edição do Fantástico, uma reportagem sobre a nova cracolândia foi ao ar sob o “fundo musical” de “Machine Gun”, música integrante do novo álbum da banda. É certo de que a diferença entre o veneno e o antídoto é a dosagem, mas combater a pirataria com a própria pirataria é novidade, pelo menos pra mim.

             Para os “break-a-texters”
             Até que gostei da experiência.
            
             Para mim
             Já deu.

Dois hamburgueres.

             É bom quando percebemos um mundo alheio ao nosso, esculpido em outros padrões. É bom quando ficamos cônscios de que as coisas simples não deixam de ser prazerosas só por serem simples.

             Em época de capitalismo pop-banditista, esses momentos ficam escassos, raros, esporádicos, tão valiosos quanto a riqueza material que pensamos ter, ou almejamos. Digo isso porque sei que dinheiro traz, sim, felicidade. Mas não somente ele. Talvez o ouro-invisível da vida moderna seja igualmente valioso ao contemporâneo ouro-verde-de-papel. Talvez até mais.

             Sei que não vou para o inferno por não saber andar na lama, mas só por precaução, me deixem afundar os pés nela. Não serei taxado de “pecador” por deixar de comprar no hipermercado, mas só por precaução, me deixem encher meu cesto numa mercearia. Não morrerei queimado por não comer um BigMac com Coca, ou cantar seu jingle imortal, mas só por precaução, me deixem comer pão de sal com manteiga e tomar uma caneca de “leite queimado”, antes de retornar à realidade metralhante do capitalismo.

Um breve excerto sobre a inveja.

             Segundo o dito popular, o exilado pecado da inveja mata. Eu até diria que é verdade, se considerasse que tanto o invejoso quanto o invejado morrem, mais cedo ou mais tarde. Eu – o invejoso e o invejado, conforme as taxações – confesso que vou morrer, sim. Assim como você, meu leitor, sua mamãe, seu papai, seu amiguinho e todos os patinhos.
             No entanto, uma das coisas que mais me irrita é o uso inadequado de palavras das quais não se tem ciência do significado. Ou seja, antes de falar qualquer merda, é sempre bom saber o que a merda significa. É como na aula de semiótica: se não houver prévio conhecimento do signo, o significante e o significado serão distorcidos ou não reconhecidos.
             Para esclarecer: o pai dos menos inteligentes que nós apregoa que a inveja ramifica-se em várias situações, que variam desde o sentimento de despeito, passando pelos ciúmes, a cobiça e, claro, a que eu mais gosto: “misto de pena e de raiva”.Depois desta última, considero-me, realmente, invejoso.
             Ô dó!

9729325-5
“Não prometa o que o seu know-how não know how fazer.” Adoro!
O quanto puder, claro, se puder.

As cores das coisas comuns

             Eu nunca perdi minha capacidade de me admirar com o mundo, nem quero perder. Me divirto nos detalhes quase imperceptíveis das coisas banais. Penso que a trivialidade está carregada de surpresas sutis, ora boas, ora ruins, mas sempre com uma energia latente, com potencial para te deixar feliz, perplexo, triste e tantos outros sentimentos sobre os quais não temos a menor autonomia.

             Para mim, essa observação é ainda mais válida. Sei que existem pessoas que não têm sentimento, ou no mínimo não demonstram; há aquelas que sentem demais e aquelas que preferem não sentir. Eu sou a prova viva das três situações, como num espectro de cores, onde cada um dos valores inseridos pode determinar milhões de cores diferentes. Eu sou um espectro de sentimentos. A admiração mais uma pitada de perplexidade forma um terceiro sentimento, a dubiedade. O amor decrescido de dez por cento de cumplicidade não é mais amor. A antiga amizade combinada com gradações de divergências dá formas à antipatia.

             Nesses últimos dias, tenho andado com minha “paleta” a tiracolo. Digo mais uma vez que não canso de me admirar com o mundo e suas banalidades, e que faço questão de reparar e contestar aquilo que me chama a atenção.

             Hoje mesmo, eu acabara de chegar nas dependências da empresa onde trabalho e resolvi dar o meu tradicional “bom dia” para um funcionário. Percebi que o “bom dia” foi recíproco, mas o “tudo bem?” não obteve nenhum tipo de resposta. É assim todos os dias. Sempre vejo que as pessoas não respondem aos cumprimentos de ninguém. Pensei um pouco a respeito e até tirei algumas conclusões, mas fiquei intrigado na razão de as pessoas serem assim. No motivo pelo qual elas respondem obrigatoriamente ao “bom dia” e não aos cumprimentos. Será que o coleguismo dentro de uma empresa é sintetizado numa expressão pronta, que se exprime automaticamente às oito da manhã? Ou será que eu sou sociável demais?

             Independentemente da resposta, gostei da observação.

             Uma outra situação interessante é quando vejo o caminho para o qual as pessoas estão levando o amor. Provavelmente, dentro de alguns dias, começarei a dizer “eu te amo” com a mesma freqüência que digo os “bom dia” citados acima. Eu sei que é nobre a faculdade de amar, mas atualmente temos dois grandes problemas com o tal sentimento: a intensa vulgarização das pseudo-sensações e a confusão causada por elas. Ora, por favor: paixão é uma coisa, carinho é outra e, o amor é algo completamente diferente, uma reviravolta. Amor não aparece em um mês ou dois. Amor não aparece em seis meses. Amor não nasce do dia para a noite. É único, especial e dispendioso. Leva tempo até que o carinho e o afeto comecem a tomar formas mais fixas, menos volúveis. Por ignorância de uns, ignorantismo de outros, temos hoje um altíssimo índice do que chamo de turnover do coração, ou seja, uma imensa rotatividade de amores que entram e saem, assim, do nada. Hoje ama-se a torto e a direito e fica todo mundo feliz, até o momento carinhosamente apelidado de “a hora de quebrar a cara.” Uma nesga de fogo-de-palha em tons de laranja com quinze por cento de burrice acinzentada. A paixão-marrom-efêmero.

             Quer saber? Apesar do meu olhar crítico sobre os fatos, sobre as pessoas e os mais bizarros modos de expressão que elas apresentam, eu não quero ser um psicólogo. Não quero saber o que você tem, não quero te curar, não quero que você deixe de ser o que é porque eu lhe disse ou deixei de lhe dizer algo. O que eu quero é ver os seus erros em essência, as entranhas das suas falhas e, claro, o escopo das suas boas atitudes, dos seus acertos e sucessos. Todos deveriam ser assim. É um constante processo de aprendizado, de autolapidação, egocêntrico, às vezes, mas que sempre lhe ajuda a tomar decisões corretas, a endireitar o que foi feito às canhas. Um processo de mistura das cores da paleta-luz, até na chegar no branco-perfeição.

             Sei que a cegueira causada pelo pseudo-amor alheio aguça minha visão. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Sei que falta de educação alheia me ensina a ser cada vez mais cordial, respeitoso e respeitável. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Sei que a petulância alheia me diz que tipo de pessoa me circunda. Se me perguntarem, digo. Mas se não, calo-me.

             Acredito ter-me feito entender como um bom crítico, um bom observador, embora não deixe transparecer no meu dia-a-dia. O homem é um ser sutil e eu não fugi à regra. Apenas aproveitei dessa sutileza para me aprimorar e tentar fazer o mesmo com aqueles pelos quais mantenho minha estima. Se puder despertar nelas o maravilhoso senso de analisar, creio que compartilharão da minha opinião. Quero suscitar nelas, a aptidão de sempre se surpreender, mesmo com as coisas mais tolas. Quero que elas aprendam a ver como eu vejo, que elas descubram que o homem-comum é a melhor surpresa. Quero que percebam que as grandes lições estão em Nietzsche, Montaigne ou Agostinho, mas que as melhores e mais concretas, nunca abandonaram o seio da trivialidade do homem contemporâneo.