Ado, A-Ado.

•junho 16, 2008 • Deixe um comentário

Pensando que o nome “O Populacho” não é nem um pouco amigável, resolvi criar o Meu Quadrado. Tá na moda, todo mundo conhece e é mais popular que o próprio Populacho. Tem pês aqui!

 

http://meuquadrado.wordpress.com

 

falei.

Publicidade, sangue e um potinho de cocô

•maio 13, 2008 • 1 Comentário

              Quarta-feira, 7:06h, senha 22 e uma bela porção de gente sentada nas cadeiras geladas do laboratório. Não sei se estou certo, mas a impressão que tive foi a de que boa parte da cidade resolveu fazer o mesmo exame que eu, no mesmo dia que eu, no mesmo horário que eu e com o mesmo médico que eu, com exceção do infeliz que esquecera o potinho branco e marrom na cadeira ao meu lado. O tom branco-translúcido do plástico e o marrom você deve saber muito bem do quê, já estavam por me centrifugar o estômago. Sorte a minha pelo pote estar lacrado. Azar o meu por ter escolhido justamente aquele lugar para sentar.
              -Dezessete, guichê dois, por favor.
              Do outro lado do pote, uma garota de cabelos pretos, rosto angelical e uma pinta pouco acima da boca, um tanto parecida com a cafetina do meu extinto fetiche. Digo “parecida” pelo fato de a minha cafetina não ter as unhas roídas e nem o rosto em tons de amarelo-trator. Me daria dó se eu não a tivesse visto dias antes no You Tube se esbaldando com uma garrafa de refrigerante. Acho que o amarelo era de um leve sentimento de vergonha, ou, no mínimo, o refrigerante que secou. Talvez as unhas fossem o tira-gosto.
              -Dezoito, guichê quatro, por favor.
              O potinho no meio, a garota de um lado e eu de outro: belo sanduíche! Uma comedora de unhas, um hipocondríaco atrasado para o trabalho e um monte de merda enlatada entre os dois. Senti falta da garçonete servindo 700ml de Gelo com Coca-Cola, como no Burger King, mas na falta, “sempre há um copinho com dois goles de Fanta depois do exame”, como dissera a enfermeira. Numa ocasião tão metafórica (irônica, até) chega a ser um pouco asqueroso pensar no que seriam os dois goles de Fanta, principalmente se for a enfermeira quem servir.
              -Dezenove, guichê um, por favor. Dezenove, guichê um, por favor. Vinte, guichê um por favor.
              7:34. A senha vinte era da comedora de unhas. Ela foi a primeira mordida do sanduíche. Restávamos eu, o cocô, e pouco mais de vinte minutos para chegar ao trabalho. Queria saber quem foi o maldito publicitário que fez a campanha do laboratório. Quem se sente feliz, com um sorriso prateado de uma orelha à outra e saltitando de alegria quando está prestes a ser perfurado por uma agulha? Quem se sente tranqüilo antes de fazer uma laringoscopia? Qual é a criança que não vai chorar ao ser violada por uma agulha, só porque está vendo um monte de bichinhos pintados na parede? Quem gosta de se sentar ao lado de um pote de merda? Ah, faça-me o favor. Às vezes eu me pergunto se a publicidade é ou não mentirosa. Sempre chego na conclusão de que nós não mentimos, mas “eufemizamos” as coisas que são duras demais para uma digestão saudável. Somos a água que te ajuda a engolir. Ou a Fanta.
              -Vinte e um, guichê  dois, por favor.
              Entre a saraivada de tossidos e espirros, levanta-se um homem, triunfante e imponente, como nos filmes antigos. Faltara a ele somente o gelo seco, luzes ao fundo e músicas do Era ou Madredeus, que acredito terem tocado em seu subconsciente, num volume tão intenso, que não o deixou escutar, pela segunda vez: “Vinte e um, guichê dois, por favor”. O jeito era cutucar o homem triunfante e imponente, com a ponta dos dedos, desperta-lo. Se algo me fizesse aperta-lo com as mãos, o triunfo então seria meu.
              -Vinte e dois, guichê quatro, por favor.
              Ah, minha vez! 7:41h. O último ônibus passa às 7:45h. Diferentemente da Madonna, meus quatro minutos são para salvar o meu dia de trabalho e não o mundo. Time is waiting. A coletora era uma mulher “especial”: pele morena, olhos e boca impecavelmente delineados, cabelos lisos pela chapinha, dois metros de altura, um e meio de largura e três de diâmetro. Era um monstro, nada menos que isso. Quem foi o maldito publicitário que colocou enfermeiros de jaleco branco e olhos plácidos no comercial? A realidade agora era dura demais pra ser engolida, ou pior: a realidade era um buraco prestes a me engolir. Por alguns instantes me perguntei se eu deveria mesmo fazer os exames, mas não durou muito. Ela “graciosamente” colocou as mãos em meus ombros e me conduziu até à sala de coleta. Pensei estar carregando dois sacos de cimento, enquanto ela me acariciava os trapézios. Não houve um “bom dia”, um “como vai?”, ou um “oi” sequer. Tudo o que escutei foi um “bote o braço aqui” e o esticar da borracha. Aliás, aquela borracha é pior que a agulha. Somando meus medos, eu agora tinha oito exames diferentes a se fazer com a mesma amostragem de sangue, estava em uma sala pequena e fechada, com uma mulher bizarra ao meu lado, uma seringa, uma agulha e uma borracha me prendendo a circulação. Eu poderia gritar, mas quis não arriscar. Ali do lado também havia éter para me deixar inconsciente e consumar o “Boa noite Cinderela” ou extirparem meus rins e me colocarem numa banheira de gelo. Bobagem, a minha. Nesse momento, percebi que poderia respirar aliviado, pois os animaizinhos estavam pregados na parede. Uma galinha rosa, um jacaré azul, um tucano vermelho. Além de tudo, ainda fui levado para a sala infantil, sem direito a pirulito depois da agulhada. Por sorte a minha, não demorou muito. Oito tubos de ensaio cheios em menos de dois minutos. Oito quarteirões a se correr em menos de dois minutos. “– Posso correr depois da coleta, moça?”, “– Tome um café antes”.
              Nada de café. Alguns passos depois da sala infanto-surrealista, de volta à recepção, uma senhora apanha o tal pote nas mãos e se senta, colocando o “Coletor Universal Farmax” no colo e encobrindo-o com as mãos, como quem tenta proteger algo valioso. Levantou-se quando ouviu alguém chamar pela “Dona Uáilde*”. Juro que na hora não ri nem sequer fiz piadinhas para mim mesmo, mas a melodia e alguns versos de “Born to be wild” dos Rolling Stones refestelaram-se na minha cabeça por um bom tempo. Depois de ouvir “cadê meu cocô, caramba?” ao derrubar o potinho, parodiei para “Born to be Uáilde”.
              7:46h, sozinho, perfurado, com fome e cansado.
              7:47h. Atrasadíssimo. Por sorte, o ônibus também.

 

 

              *se não sei a grafia correta, o jeito é a fonética, né?

 

O Bom Dia Feliz

•maio 2, 2008 • 2 Comentários

              Normalmente as primeiras horas do dia são sempre iguais, pra todo mundo. Isso é fato, é verdade, é lamentável. Quando digo “as primeiras horas do dia” não me refiro ao sentido literal da palavra, meia-noite, uma, duas, três da manhã. Me refiro às primeiras horas do meu dia – sete, oito, nove – ou às primeiras horas do dia de minha mãe – oito, nove, dez, – ou às primeiras horas de qualquer pessoa. Ou seja, o sentido aqui proposto é dos primeiros tempos depois de acordado, o seu tempo oficialmente produtivo e útil, embora pra muita gente não tenha nada produtivo, quem dirá de útil.

              Sem mais delongas ou explicações, um acontecimento recente me fez refletir sobre aquilo que dizemos nas primeiras horas do dia: os tão afamados “bom dia”, aos quais sempre gosto de fazer referência em suas diversas formas, da sussurrada à arrastada, passando pela deprimente e, sobretudo, pela alegre.

              Gosto de ser acordado com um sorriso, com olhos radiantes, pregueados de sono e levemente delineados de remela. Cabelos desgrenhados e hálito de cabo de guarda-chuva. Gosto da naturalidade das coisas, do modo como as coisas transcorrem de fato. É assim com todo mundo, comigo, com você, com o Papa e com o Bush. Excluindo-se as atrizes da Globo, ninguém mais acorda com o cabelo penteado, olhos sedutores e boca impecavelmente torneada.

 

UM BREVE PARADOXO

Elas acordam lindas e, mesmo assim, de mau-humor.

 

              Bom, já que é mal de todo mortal acordar feio por fora, é melhor que sejamos bonitos por dentro, especialmente no momento em que nos achamos tão horrendos. E os bons leitores de “O Segredo” que me entendam, mas aqui se aplica também a Lei da Atração. Aqueles que acordam secos, ásperos e amargos darão bom dia’s secos, ásperos e amargos, que por sua vez, deixarão secos, ásperos e amargos os momentos do cumprimentado. Assim, nosso mundinho fica cinza, logo de manhã.

              E se você pensa que acordar é um momento triste, eu penso que é um dos momentos mais felizes da vida. Aliás, o que seria a vida se não acordássemos todos os dias?

              Quantas vezes lembramos de dar bom dia para a alegria após os momentos tristes?

              Quantas vezes deixamos de dar bom dia para a saúde, até o dia em que ficamos doentes?

              Quantas vezes esquecemos de dar bom dia para nós mesmos, até o dia em que alguém nos machuca?

              O Bom Dia não é ofensa, lamento, tampouco uma súplica. O Bom Dia é a mais banal expressão de como você deseja que seja o seu dia e o daqueles que lhe circundam. É o mais sincero voto de cordialidade e companheirismo tanto no trabalho, quanto na família ou escola.

              O Bom Dia que não começa bem, não termina bem, se torna hipócrita, irônico. E até o dia em que eu me acinzente num olhar ranzinza, meus “bom dia” serão felizes. Até o dia em que eu me sinta satisfeito, enquanto alegre for, não me despedirei do meu sono, mas saudarei o novo dia, o novo começo.

              Um bom dia sincero a todos.

et caetera

•março 29, 2008 • 4 Comentários

             Para os internautas hipocondríacos
             Quando estiver doente, ou pressupor que está doente, procure um médico, não a internet. Sites de consultórios médicos renomados, programas de tevê e fóruns em comunidades virtuais (estes principalmente) só servirão pra lhe enfiar mil bobagens na cabeça e onde mais você queira. Sem lubrificante.
             Você passará a não dormir, a não comer e, aí sim, você estará doente. Um espirro mais alto é um dos poucos resquícios do seu pulmão, deteriorado pela tuberculose. Um pum, ah, é o último suspiro do seu intestino corroído. Bem vindo à sua iCova! Se é a primeira visita, conte-me seus sintomas.

             Para os órfãos de pais vivos
             Falta de caráter é problema genético. Se o pai é um filho da puta, o filho é da putinha. Geralmente é aquela secretária gostosa que faz companhia no trabalho e liga pra ele às dez da noite. Se eu fosse um pouco mais malicioso, acreditaria que “serão extra” é uma nova marca de camisinha.
             Mas vejamos pelo lado bom das coisas: o legal de ser filho da putinha é que sua mãe não é cafetina (ainda) e você tem tudo pra ser político ou árbitro de futebol. Como opcional, você pode arrancar um dedo e virar presidente. É ifaí companhêro!

             Para os colegas do “trancidão”
             Quando precisar de um ônibus, vá de táxi, cê sabe. No táxi você não corre o risco de se sentar na cadeira dos “pêeniés” (Portadores de Necessidades Especiais) e não tem nenhuma gorda pra sentar em cima de você, a menos claro, que você se permita uma seção de lipo-flagelação. E o que é melhor: você não anda com uma centrífuga no estômago e nem é obrigado a respirar o ar pútrido de alguns sovacos acebolados. Por pouco não dão o bife também! Pelo preço do transporte, darão um quilo de muxiba pra fazer dueto.

             Para os trocadalhos do carilho
             Eu gosto de cursos e experiências para enriquecer o meu currículo, mas daí a escutar que estou buscando um bom “cu rico” é dose. Piadinha medíocre que envolve o meu cu, minha profissão, dinheiro e o cu dos outros. Provenham-me somente com a grana e vejo o que faço com os rabos depois. O resto vira piadinha “curriqueira”.

             Para todos os rugidos e canções
             A professora de semiótica disse que a estrutura linear de se expressar o pensamento é invenção do homem. Ou seja, fomos nós quem inventamos a bendita (ou maldita) forma de fazer com que a palavra B modifique A e C modificando B que, por sua vez, não existiria sem A. É certo de que a ordem dos tratores não altera o viaduto, mas a tal da estrutura linear faz-se responsável pela confusão de dormir com a Maria José e dormir com o José Maria. Se temos Teoria Matemática da Comunicação, porque não são válidas as propriedades comutativas da linguagem? Felizes são os ideogramas. E mais bonitinhos também.

             Para o final do Big Brother
             Uma vez ouvi dizer que o Big Brother é fruto da cultura mediana-inferior da sociedade. Então, assim como o bebê que chora antes de mamar é o povo que clama por algo que o agrade. Surge assim o nosso Grande Irmão, o caçulinha das casas de milhões de brasileiros, que têm aquilo pelo qual procuram: um programa fácil de ser digerido, que não exige muito de quem o assiste, dono de um imenso potencial para manipular e ser manipulado e, sobretudo, que retrata a realidade nacional nua e crua: gente rica lidando com gente pobre.
             Junte a isso o racismo televisivo (da emissora) de colocar somente um ou dois negros em cena, um homossexual enrustido que resolve sair do armário em frente às câmeras, o saradão e a safadinha e pronto! A receita para um dos maiores fenômenos de audiência dos últimos tempos.

             Para meus momentos no banheiro do escritório
             Desde pequeno sempre valorizei a minha privacidade. Há quem diga que isso é coisa de boiola. Há quem diga que é normal. Só não gosto quando a falta de privacidade se transforma em exibicionismo barato ou em um prato de entrada para a falta de educação. “Vai, João! Mije de pernas e portas abertas e segure com as duas mãos!”, penso. Nunca! Prefiro a cabine com portas trancadas. Privacidade pode ser frescura, mas o mictório não reúne as visões que me agradam. Que bom que todos lavam as mãos de braguilhas fechadas.

             Para a hipocrisia da TV Globo
             A nossa amiguinha plim-plim é uma das maiores aliadas do Copyright e posiciona-se absolutamente contra a pirataria, e claro, está certíssima. Segundo o G1, site de notícias da Rede Globo, o novo álbum do grupo de trip-hop Portishead, que só seria lançado em meados de abril, já vazara na internet e estaria disponível para os usuários que quisessem baixar. Porém, na última edição do Fantástico, uma reportagem sobre a nova cracolândia foi ao ar sob o “fundo musical” de “Machine Gun”, música integrante do novo álbum da banda. É certo de que a diferença entre o veneno e o antídoto é a dosagem, mas combater a pirataria com a própria pirataria é novidade, pelo menos pra mim.

             Para os “break-a-texters”
             Até que gostei da experiência.
            
             Para mim
             Já deu.

Dois hamburgueres.

•março 17, 2008 • 2 Comentários

             É bom quando percebemos um mundo alheio ao nosso, esculpido em outros padrões. É bom quando ficamos cônscios de que as coisas simples não deixam de ser prazerosas só por serem simples.

             Em época de capitalismo pop-banditista, esses momentos ficam escassos, raros, esporádicos, tão valiosos quanto a riqueza material que pensamos ter, ou almejamos. Digo isso porque sei que dinheiro traz, sim, felicidade. Mas não somente ele. Talvez o ouro-invisível da vida moderna seja igualmente valioso ao contemporâneo ouro-verde-de-papel. Talvez até mais.

             Sei que não vou para o inferno por não saber andar na lama, mas só por precaução, me deixem afundar os pés nela. Não serei taxado de “pecador” por deixar de comprar no hipermercado, mas só por precaução, me deixem encher meu cesto numa mercearia. Não morrerei queimado por não comer um BigMac com Coca, ou cantar seu jingle imortal, mas só por precaução, me deixem comer pão de sal com manteiga e tomar uma caneca de “leite queimado”, antes de retornar à realidade metralhante do capitalismo.